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segunda-feira, 16 de maio de 2011

o caderno

Ser estudante no Brasil não é nada fácil. Hoje fui ao centro de Dourados comprar um caderno brochura. O objetivo era um com capa dura, grande e 96 folhas. Minhas memórias (não atualizadas para os valores reais de mercado) me informavam que não custaria mais do que R$ 1,99. Ciente disso, meu primeiro pensamento foi aproveitar a globalização e comprar o caderno em uma loja de preço único (R$ 1,99).
Na primeira loja qeu entrei descobri que os preços não são mais únicos. Um brochura com 48 folhas custava R$3,00. Não comprei. Me dirigi a uma papelaria. Lá o caderno custava, simplesmente, R$ 9,70. Não comprei e parti para outra loja em busca do mesmo. No estabelecimento seguinte não tinha o que eu queria, mas vi umas folhas de papel almaço, com pauta, lindas, me esperando, desejando ansiosamente que alguém as preenchesse. Peguei-as, apalpei-as... pensei em tantas coisas que poderia escrever ali. De volta a realidade fui procurar pelo preço. No caixa, perguntei quanto custava, já com cinco blocos de 20 folhas cada um nas mãos. A mocinha do caixa me informou que custava R$ 0,05. Perguntei: cada bloco? Ela respondeu: - não, cada folha! Não consegui conter uma boa gargalhada, nem titubiei em dizer: depois querem que a gente estude!
Voltei para casa sem meus papéis.
A partir disso fiquei pensando em tantas coisas...



café com histórias


Não são muitas as pessoas que concordam que uma conversa de buteco pode ser frutífera intelectualmente; dia desses sentei com duas amigas antropálogas e de lá saíram muitas reflexões pertinentes. Hoje foi a vez de sentar e tomar café com outra amiga. Desse papo também colhemos frutos. Fazia tempo que não escrevia aqui, hoje, inspirado por RIOS, decidi retomar.

domingo, 20 de junho de 2010

Sobre Daniel Freitas e Leo Verão

Tem uns dois dias já que eu ouço as músicas que eles disponibilizaram no site da dupla. Ao ouvir open your eyes e "você de volta", juntas, na sequencia, pensei sobre o encontro do tradicional com o moderno, ou na chegada da modernidade tardia na América Latina, como discute CANCLINI. Então pensei: o Leo Verão representa o moderno (que na verdade deveria ser pós-moderno já) e o Daniel representa o "tradicional" (uma vez que ele vive há muito tempo ai em Dourados e é bastante conhecido). O Leo Verão canta em inglês músicas que fazem sucesso no cenário pop; o Daniel canta músicas em português que fazem sucesso no cenário sertanejo. Leo é jovem, descolado - o que direciona para um público; Daniel é mais velho, representa outra geração, mas também se apresenta cool, sendo que ambas representações, juntas, o torna midiático. Eles encontraram um jeito agradável de amenizar os conflitos entre o tradicional e o moderno (que estamos ainda vivendo, e simultaneamente sendo bombardeados pela pós-modernidade e seu outro ritmo - mais rápido, muito mais rápido, em tudo). O ouvinte fica no 50x50%. É o descolado e cool do lugar. Isso conforta! Mas a velocidade com que as coisas acontecem torna o conforto desconfortável; e a Lady Gaga? Fiuk? Mariana Aydar? Roberta Sá? Maria Gadú? E o Luan Santana geeeente? tem que ter tempo e ouvido para todos; muito complicado. Além disse temos que trabalhar, comer, dormir, sair, paquerar, transar... muita coisa (e nem sempre dá pra inter-relacioná-las). Então é mais fácil, nesse caso, musicalmente falando, com recorte para este estilo, curtir as músicas misturadas como o Daniel e o Leo fazem. Digo mais fácil para a cidade, não extamente para mim. E é por isso que acredito que eles fazem sucesso. Ainda mais depois que li e reli o site deles e vi que a maioria das cidades em que eles estão "bombando" são cidades do interior dos Estados brasileiros, com excessão de Campo Grande (nesse caso a cidade é capital, mas o Estado é considerado interior do país).
Em outras palavras isso pode significar que CANCLINI está atualizado, se a modernidade chegou tardiamente na AL (América Latina), a pós-modernidade igualmente chegará. Por que se ela existe no interior ela está tão pulverizada que é quase imperceptível.
E, enquanro isso vamos resolvendo nossos conflitos assim mesmo, as vezes assado, as vezes cru!

Reflexões sobre a Capital

Cheguei quarta-feira (16/06) aqui em Campo Grande. Eram muitas as expectativas; mas como eu disse pelo Orkut "a tripulação não colocou as portas em automático"... Despois disse, com é comum aqui no Mato Grosso do Sul, hibernei! No segundo dia de baixo metabolismo, me dei conta de que quando estou no interior me entedio porque quero o que a cidade não pode me oferecer: ritmo de cidade grande, movimento, distâncias badalações, muita gente, rolo e confusão; ontem, eu, aqui na capital, dormi! Rs. Não consegui me animar para sair, a impressão que eu tinha é que tudo lá fora era muito rápido, muito dinâmico, "movimento, rolo e confusão". Não foi medo, foi fobia - auhauahua (risada longa). Mas é que é assim, não animeiii. Na verdade foi insegurança; não sei se o rápido que eu queria era esse; e se num ataque cosmopolita eu quisesse mais ainda? Das opções de diversão de ontem nenhuma me agradava... não muito; ficar em casa foi tão mais seguro! Seguro com o carro, seguro com a vida, com o bolso; e ainda com a internet para complementar. Tranquilo, sem risco de acidentes ou chateações. Notaram a semelhança com o atmosfera disponível nas cidades do interior do MS? Se é assim que me sinto seguro, por que resistir tanto quanto ao fato de ficar lá? Será que me é uma condição inerente essa de querer transitar?
Acredito piamente que nossa geração (eu nasci em  1982) vive um ritual de passagem. As vezes chego até a me sentir como um ratinho de laboratório sendo experimentado, testado; me sinto confrontado o tempo todo, parece que há uma necessidade constante algo muito inquietante que ainda não encontrou satisfação. uma vontade de estar aqui, lá ou em qualquer lugar que não seja onde estou. Manoel de Barros tem uma frase boa pra isso: "do lugar onde estou já fui embora". Existe um lugar inquietante? Existe alma, encarnada eu digo, quieta?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

brainstorm

Dourados, 21 de maio de 2010
casa da Renata
conversando sobre feminismo
Renata e eu

o exercicio: sair para impregnar-se do novo e revitalizar o passado e ficar para recolher o passado para empedir a morte no esquecimento.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDENTIDADE DOURADENSE

Muito tem se investido na construção da identidade douradense (concursos literários, curtas-metragens, folders, comerciais de televisão, cerimônias oficiais). A multiculturalidade é utilizada para definir esta identidade como homogênea e horizontal. Procura-se forjar, por meio de um sentimento único de amor a terra, que diferentes culturas convivem harmoniosamente em Dourados. Ciente de que, desde o final do século XIX, o território onde a cidade está localizada abriga diferentes culturas, o que a caracteriza como multicultural, a proposta é analisar a construção da identidade douradense entre 1920 e 1990, a partir de seu mito fundador, discursos que representaram e representam e imagens que simbolizam.
O mito fundador da identidade douradense, um discurso arregimentador que evidencia qualidades do antigo Patrimônio (solo, clima, construções, predisposição ao desenvolvimento e ao progresso), surgiu na década de 1920, por meio de quatro reportagens publicadas pelo jornal O Progresso em Ponta Porã. Nos anos 1930, depois da emancipação política, o governo municipal procurou fortalecer este mito organizando a cidade com o intuito de prepará-la para um futuro de promissor: organização do espaço urbano, incentivos para abertura de novas casas comerciais, abertura de estradas para facilitar a locomoção e construção de pontes para ajudar no escoamento dos produtos foram ações que impulsionaram o progresso da cidade.
Nos anos 1940, a fundação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados – CAND tem um significado importante, pois para incentivar a atividade agrícola, foi necessário homogeneizar o pertencimento coletivo. As memórias produzidas sobre Dourados descrevem situações multiculturais. A cidade recebeu diferentes contingentes populacionais oriundos de várias partes do país e do mundo, e por isto, assistiu em seu território os conflitos e as negociações entre esses grupos.
Multicultural, qualifica uma sociedade formada por diferentes culturas onde problemas de governabilidade surgem a partir desta formação, esses problemas exigem estratégias de regulação do múltiplo que são chamadas de multiculturalismos. A produção acadêmica pouco ou nada fala da identidade douradense. Por outro lado, com relação à história do município, apresenta um trabalho significativo, principalmente porque abre um leque de possibilidades investigativas acerca de sua história e memórias. Os pioneirismos, a luta da civilização contra a barbárie e as especificidades locais, também compõem parte da estrutura deste.
A situação fronteiriça contribuía negativamente para as representações sobre a região. Ao apresentar aspectos da fronteira e dos fronteiriços, podemos discutir sobre uma realidade de trocas físicas e simbólicas, positivas e negativas, de proximidade e de segregação. Um discurso assumido e amplamente divulgado pela imprensa por meio dos jornais O Douradense e O Progresso.
Nas reportagens publicadas por eles encontram-se mitos fundadores, discursos identitários, campanhas pró progresso e civilização, ampla política de valorização da cidade, do solo, do clima, das possibilidades para o futuro e de suas gentes. Foi por meio das páginas dos jornais que circularam e circulam até hoje em Dourados, como é o caso do O Progresso, que cidadãos letrados, jornalistas e advogados valorizaram a agricultura, criticaram a Mate Laranjeira, defenderam a industrialização dos ervais, incentivaram a pecuária refinada, selecionaram os amigos da cidade, reivindicaram melhorias para o município e elegeram políticos nos níveis, estadual e federal.
Nessa produção de sentidos realizada pela imprensa, porém, pouco falou sobre as populações indígenas aqui existentes. Muito pelo contrário, procuraram escondê-las. A década de 1950 assistiu a continuidade desse projeto. Nos anos 1960 veia a primeira oficialização, a da História, por meio da monografia de Ercília Pompeu. Dez anos depois, em 1970, bandeira, brasão e hino passaram a compor o conjunto de representações simbólicas douradense.
Na década de 1980 discursos emergentes rompem o silêncio e passam a solicitar seu reconhecimento público, ou seja, a demarcação clara das diferenças. No início dos anos 1990, a manipulação do imaginário coletivo se dá por meio da fixação de monumentos que homenageiam personagens considerados importantes para o município. No final desta mesma década, a vinculação com a fauna e a flora pantaneira foi questionada pela população, demonstrando que discursos unificadores não faziam mais sentido. Ao longo das semanas, retomaremos a discussão, década por década. Aguardem!

terça-feira, 8 de julho de 2008

TUDO de bom

A palavra projeto, enquanto substantivo masculino, segundo o Aurélio, é idéia que se forma de executar ou realizar algo. Já vimos de tudo, idéias dentro e fora do lugar, projetos que são lindos no papel e inviáveis na prática, que estavam complicados no início, mas depois tomaram forma; outros, porém, redondos do início ao fim.
Ontem e hoje, vimos um exemplo deste último. A Cia. TUDO (Teatro Universitário de Dourados) esteve presente no palco do Teatro Municipal, com exercícios teatrais feitos a partir das obras de Nelson Rodrigues, “a vida como ela é” e “viúva, porém honesta”. Um projeto da Coordenadoria de Cultura da UFGD, comandada por Emmanuel Marinho, com muito entusiasmo e carinho, e executado por Fabrício Moser, um jovem artista errante, que dirige cada exercício teatral com profissionalismo e vontade.
Para início de conversa, o ingresso era um livro infantil, facilmente encontrado em lojas do ramo e supermercados com preços acessíveis. Parece que o teatro já começa aí. O prazer de, ao comprar um livro, buscar na memória lembranças das primeiras leituras de alguns clássicos da Literatura Brasileira, como os contos de Machado de Assis e de imaginar uma criança lendo-as sem saber qual será sua reação diante daquilo tudo, tomam forma realista quando percebemos que o mesmo ingresso revela um universo de necessidades e carências, que muitas vezes, o Estado, sozinho, não consegue sanar.
No palco, alunos da universidade e membros da comunidade. Juntos, eles dão sentido à palavra extensão universitária. Cidadãos, douradenses ou não, que dispensaram parte do seu, puseram-se à prova, se permitiram e se testaram em nome de uma arte que acreditam. No mesmo palco, dividiram espaço, com o profissionalismo que se espera de uma montagem rodrigueana e o nervosismo competente de atores em formação. Entre risos e reflexões, a missão cumprida e a arte executada.
O teatro embriaga, e em tempos de Lei Seca, deixa a noite de terça-feira mais alegre. A universidade se faz presente e valoriza a cultura, a criatividade e o talento local. Os espaços públicos, como o Municipal, são ocupados para fins realmente públicos. Parece que começamos a consumir aquilo que produzimos com sabor douradense.
Sei não, tão sentindo um gostinho de quero mais?

sábado, 5 de julho de 2008

SOBRE O MACHISMO

Detesto quando me pego sendo machista. É tão chato! Tão limitado! Esses dias me peguei pensando seriamente que precisava de uma mulher, uma esposa. Alguém que limpasse a casa, que nunca deixasse a louça suja em cima da pia, que levasse um lanche apetitoso no meu quarto enquanto eu tento escrever. Uma mulher que mantivesse a área de serviço limpa, o banheiro sempre lavado, a cozinha organizada e o fogão brilhando. Eu visualizava facilmente essa mulher, minha mãe! Caralho, ela definitivamente faz falta. Passei a considerar meu pai um homem sortudo por ter, em casa, uma mulher exemplar do tipo que ainda conserta roupa. Mas essa já tinha dono, era preciso encontrar outra. Nessa busca percebi que o tipo de mulher que eu queria não precisava ser minha esposa, uma empregada doméstica seria muito melhor. E foi aqui que o “bicho pegou”. Comecei a elaborar mentalmente justificativas para esse querer. E foi terrível, porque eu tinha que questionar algo que eu queria muito, acreditem, era muito importante naquele momento ter paz pra pensar, e ter paz significava ter minha casa arrumada.
Na tentativa de classificação, minha memória historiográfica me fez perceber que eu buscava uma escrava, e, embora eu me recusasse a acreditar nisso, a classificação ia ganhando forma e peso, até que chegou num momento em que parei. Permitir tal pensamento seria o mesmo que admitir que minha mãe, além de empregada doméstica havia sido escrava a vida toda. Meu pai, por sua vez, de sortudo virou carrasco. Não! Ele apenas gosta de que as coisas estejam de uma determinada forma, com poucas possibilidades de alteração. Ela apenas separou muito bem os papéis que ambos, ele e minha mãe, deveriam representar – ele é provedor, e ela é mantenedora. Ficou até bonito, né!? Mas não era tão simples assim, havia nesse meio muitas coisas ainda por aceitar. Afinal, eu não sou como meu pai, logo, não posso pensar como ele.
Mas a verdade é que quando Elis cantava ela tinha razão: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Será que não era mais seguro, mais fácil daquele jeito, tudo “certo”? (mesmo sabendo que a definição desse conceito, depende). Ao menos ele sabia o que tinha que fazer. Trabalhar, casar, ter filhos, educá-los. No meio disso tudo, com os netos, vieram mais alegria, mais orgulho, e claro, novas preocupações. Novos planos são feitos, afinal, as coisas não saíram exatamente como eles pensavam.
O problema é que eu acho que pulei uma parte desse processo. Sem casar, sem ter filhos fui direto para as preocupações porque as coisas não saíram exatamente como eu planejei.
Pensando sobre o assunto, pude identificar os momentos de cada encruzilhada, aqueles momentos decisivos... entre quatro possibilidades, a necessidade de escolher uma. Percebi que sempre que cheguei numa dessa, fui eu quem escolhi por qual seguir. Meu pai sempre se posicionava como observador, dando palpites e impondo sua presença, no intuito de manter vivo na memória o exemplo que ele representava, ou seja, em qualquer situação, o “caboclo tem que ter saco pra assumir o que faz” - ele dizia.
Então, se alguém tinha que ser culpado, esse alguém era eu, já que EU tinha escolhido uma vida “moderninha”. Aí as coisas fluíram... arrumei trinta e sete justificativas para cada situação, culpados (as) para todas, e tudo não passava de contos, crônicas e declarações de amor. Mais os dois primeiros, do que o último, mas no fim das contas tudo valia. Um amigo me disse outro dia que, envelhecer é a perda da capacidade de adaptação ao ambiente. Nesse sentido, acho que envelheci um pouco. Mas esse é um papo para outro dia...

BRADO!

Desde que fiz a opção por permanecer nesta cidade, desde que me formei aqui e passei a estudar a identidade douradense, percebi que Dourados tem uma característica, ela sempre foi palco de encontros e desencontros culturais.
A imprensa, sempre foi um veículo eficiente na narrativa desses momentos, fornecendo para a população, elementos, sobre os quais ela deveria pensar. Então, é justo que a dialética seja exercitada.
Dom Redovino Rizzardo, tem publicado uma série de artigos falando sobre homossexualidade, penso que chegou a hora de falar alguma coisa. As pessoas precisam ser livres pra pensar. Isso é um apelo. Lembra de quando você era criança e interpelava seus pais com um por que? Agora é a mesma coisa.
Redovino Rizzardo, agora se pronunciou sobre a o Projeto de Lei Complementar 122/2006, que pretende tornar a homofobia crime. Ele fala que “corre-se o perigo de violentar a quem pensa e age diferente”. Infelizmente essa é uma situação que já existe, todos os dias milhares de homossexuais são violentados físico e moralmente país afora.
A discussão sobre o projeto deve ir por outro caminho, o da eficácia da Lei Complementar. Parece que a proposta confronta dois direitos garantidos pela Constituição, o da liberdade de expressão e o da promoção do bem de todos, “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação” - a discriminação por preferência sexual, por exemplo.
A preocupação não deveria ser as “situações constrangedoras para a Igreja”. A igreja há muito tempo está constrangida. Não adianta pedir perdão aos judeus, nem afastar padres pedófilos. O número de adeptos ao catolicismo tem diminuído, significativamente, e ela reage com campanhas voltadas para a juventude.
Daí a necessidade de dogmatizar. Parece que o ranço da inquisição ainda é saboroso, pois o bispo reclama porque padres não poderão mais, nas homilias, CONDENAR a homossexualidade. E eu, que inocentemente acreditava que o julgamento era só no final, e que caberia a Deus tal atitude? Não precisa condenar nada, ninguém tem dúvida sobre o posicionamento da Igreja sobre este assunto.
O questionamento se “a Igreja, como qualquer outra entidade ou organização, poderá ainda estabelecer normas e orientações para seus adeptos?” revela um despotismo, a Igreja ESTABELECE NORMAS, e é complicado, porque ela se baseia nos Evangelhos, que foram escritos há muito tempo. Quando bispo cita o Gênesis, acredito não ser muito eficiente para os que sabem que ele foi escrito durante o exílio da Babilônia, no século VI antes de Cristo, para fornecer aos judeus retirados de Judá por Nabucodonosor II, um passado de pertencimento comum. Uma narrativa contextualizada em sua época, e não muito eficiente para a nossa, quando não tomada como metáfora, para uma origem e uma ordem religiosamente natural.
Além disso, há que se lembrar também, que nem na Roma Antiga ela conseguiu proibir as práticas homossexuais. Senhores poderiam manter relações sexuais com escravos, desde que não fossem passivos.
Os encontros pessoais precisam ser valorizados. As pessoas se encontram e se completam, porque querem, não porque um padre falou. Parece que ele não percebe que muitas pessoas simplesmente não aceitam mais os velhos dogmas católicos. E o que é pior, ele não faz nada pra mudar isso. Pelo contrário, ataca seu próprio rebanho em nome de um Deus assexuado, poxa vida, ele não criou o homem e a mulher a sua imagem e semelhança?
Ademais, os gays são freqüentemente acusados de serem promíscuos, de só pensarem em sexo, mas quem vive enaltecendo os genitais é a Igreja, que só fala do amor entre homem e mulher. Ninguém nunca questionou o amor heterossexual, não há problema algum em sê-lo, mas é preciso aceitar que existem outros amores. Não é uma questão de certo ou errado, isso não importa, os gays acham errado ser hétero, e daí, toma lá da cá? Isso não adianta, é patinar. Se a heterossexualidade é uma condição para ser católico, tudo bem. As pessoas poderão decidir se querem ou não praticar o catolicismo. Mas tem um problema, muitos gays já foram batizados. É o que dá impor um pertencimento religioso ao nascer. E a Igreja, vai continuar constrangida, vendo seus fiéis migrarem para outros credos.
Penso que a sexualidade não é pra ser discutida, e sim vivenciada. Qual orientação sexual seguir compete a cada um decidir. Talvez o PLC 122/2006, não seja tão eficiente como ele se propõe a ser, mas não dá pra temer uma Revolução Gay.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

antítese - os cristãos e a homossexualidade

Por vezes, somos surpreendidos nas páginas do jornal O Progresso com as opiniões do bispo da Diocese de Dourados, Dom Redovino Rizzardo. Como pastor de ovelhas, ele deve e pode opinar a respeito dos assuntos que considera importantes para a manutenção do rebanho. Entretanto, em função dos últimos juízos de valores emitidos, talvez seja necessário, como em um exercício mental, refletir um pouco sobre os argumentos utilizados principalmente quando o assunto em discussão é o outro em sua mais completa definição e multiplicidade. Para tanto, antes de qualquer coisa, é necessário que se diga que a discussão proposta não evoca a hierarquia existente, sendo apenas alguns questionamentos da História para a Teologia.
Em opinião emitida em 14 de Março de 2008, intitulada os cristãos e a homossexualidade, Redovino relata que o fato de os habitantes de uma determinada ilha grega não estranharem a homossexualidade não coincide com a evolução de espécie humana. Considerei estranho, pois a igreja sempre se opôs ao evolucionismo. Depois, ele argumenta sobre a construção de valores com base na ética, na razão e na moral, todos frutos do liberalismo, mas no texto com base religiosa. Ele fala ainda da diferença anatômica entre os órgãos sexuais, e que “a realização humana acontece somente no encontro maduro, aberto e confiante com o diferente, ou seja, entre homem e mulher”.
Não concordo. Primeiro, porque falar de diferença tendo como ponto de partida a Igreja Católica não é muito convincente. A própria narrativa bíblica desconsidera o outro quando postula que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, ou seja, igual a ele, portanto, a diferença foi excluída dessa criação. E a diferença que ele evoca é uma diferença física, fruto do pensamento positivista em voga no mesmo século em que as idéias dele parecem residir, o XIX. Segundo, porque tendo Deus criado, homens e mulheres, significa que ele era portador dos dois elementos: masculino e feminino, sendo assim ele seria andrógino ou no mínimo, hermafrodita, mas não é a sexualidade de Deus que está em questão, e sim a dos humanos. E terceiro, porque mesmo entre pessoas do mesmo sexo o encontro maduro, aberto e confiante acontece. E anatômico por anatômico, existem outras regiões erógenas no corpo humano.
Ser cristão não depende da aceitação da palavra de Deus, mas sim da consideração da vivência de Jesus, e como sabemos, ele mesmo nunca escreveu uma só palavra, sendo suas parábolas interpretadas por seus seguidores, que por sua vez estiveram sujeitas à memória – poderosa produtora de lapsos, sem falar do critério seletivo que a mesma possui.
Encontrar o referencial a seguir é difícil para qualquer ser humano. A Igreja Católica apenas oferece o seu, mas daí considerar que o dela é o mais fácil me parece uma atitude desesperada de alguém que vê o catolicismo estagnado por causa do dogmatismo anunciado. E sobre quem deverá estabelecer as leis que norteiam o comportamento humano se não for à própria sociedade que o vivencia, com certeza a Igreja não será, haja vista que ela não consegue nem estabelecer homogeneidade dentro do clero (basta lembrar que o Papa em visita recente aos Estados Unidos foi obrigado a considerar sobre os abusos sexuais feito por padres).
As verdades absolutas não existem mais. Os grandes modelos explicativos sucumbiram e com eles as velhas estruturas dogmáticas. O que me parece possível entender disso tudo é que estamos diante de uma estreita vinculação com o que postulava Joseph Ratzinger quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que silenciou freiras e retardou a discussão ecumênica em no mínimo vinte anos.
O discurso, portanto poderia ser outro, o do amor, do entendimento e do respeito às diferenças. Sendo todos nós filhos de Deus, quero poder continuar acreditando que não existem filhos mais ou menos amados.
Sobre o comportamento homossexual em si, penso que as pessoas deveriam estar mais atentas às construções sociais. A heterossexualidade também foi um conceito construído. É engraçado verificar que o berço da civilização ocidental, a Grécia, ou seja, a mesma região que estranhou o bispo pela aceitação da diferença, esteja perdida nos livros de história e que sua importância seja resumida, ou será que podemos dizer que os gregos eram héteros sem ter medo de cometer anacronismo teórico?
Por fim, a promiscuidade não é exclusiva dos gays, tampouco a AIDS, que até onde meus amigos das ciências médicas puderam me informar, não faz entrevista para saber o melhor corpo a contaminar tampouco considera a sexualidade como critério de seleção. Além do mais, se os casais heterossexuais não fossem promíscuos não seria mais necessária à existência da Pastoral Familiar, que surge no momento em que a Igreja percebe que o modelo tradicional estava sendo desconstruído por vários motivos, dentre eles a “traição” de homens e mulheres ao sacramento do matrimônio através de relações extraconjugais, geralmente relações carnais. Se tudo no mundo se transforma, a igreja também deveria. Mas o novo causa medo, em muitos casos pode ser aterrorizante, mas sem dúvida também é excitante. Portanto, ouvir e ler é preciso, mas navegar – no sentido de experienciar, também é. E, rumo ao novo milênio com idéias fora do lugar, não dá.

sábado, 6 de outubro de 2007

Memória e História Douradense

Considerações acerca da memória douradense[1]

Mercolis Alexandre Ernandes[2]

Memória ou História? Foi a partir deste questionamento provocado pela disciplina de Metodologias da História que esta velha briga me arrebatou. Pára o mundo que eu quero descer foi a primeira coisa em que pensei, e diante do problema de definição teórica sobre o trato de uma de minhas fontes, fui pensar. A Monografia do Município de Dourados, escrita em 1965 por Ercília de Oliveira Pompeu foi o documento responsável pela pergunta latente. Pensar sobre estas definições tão cerradas sobre como analisar ou guardar o passado, me levou, pelos caminhos da história, aos textos de Le Goff, Halbwachs, Guarinello, Betoni.

Maurice Halbwachs, a partir do livro A memória Coletiva publicado em 1950, estabelece distinções bastante precisas entre memória individual, memória coletiva e memória histórica, e ainda considera como formas de registrar o passado, os documentos oficiais fornecidos pelo presente e as narrativas individuais e coletivas que permeiam a consciência do grupo que as mantém. Neste sentido, nossa fonte é memória individual quando considerada como a escrita de uma cidadã douradense, uma voz credenciada pela ascendência pioneira que escrevera para que nada se perdesse no tempo, conforme analisou BETONI (2002). A narrativa de Dona Ercília, enquanto memória, nos revela um ponto de vista, visto de um ponto – o da autora, que privilegia conceitos como civilização e progresso enquanto elementos propulsores do desenvolvimento do município, em oposição à barbárie – entende-se neste caso a população indígena. Escrito trinta anos depois da fundação do município, o texto toca o passado pelo lado de cá num contexto político nacional conturbado, e expõe o pioneiro como herói (e vale lembrar que o pai dela era um) que enfrentando toda sorte de sacrifícios e privações chegou neste deserto e, com a civilização plantou o marco do progresso. Lembrado constantemente, o pioneirismo é enaltecido, pois em função deste, Dourados, num futuro confiante, seria lindo oásis do Brasil[3].

A intenção do documento é bastante clara. Ele guarda os fatos considerados pela autora como importantes para a história da cidade, para que as gerações futuras pudessem retomar sua origem. Dona Ercília escreveu a monografia por ocasião de um concurso da Secretaria de Educação do município, e venceu. Publicado na íntegra, o texto se tornou documento oficial, e seus contemporâneos continuaram, a partir dele a produzir memória, mas agora coletiva. Tão coletiva quanto histórica, haja vista que essa visão passou a ser compartilhada pelo grupo e se difundiu na sociedade como verdade, afinal a autora, antes de qualquer coisa, é uma testemunha ocular dos acontecimentos que reuniu as informações por ela consideradas mais importantes para a formação da história local.

Para o teórico falante, a fonte em questão é, portanto sem dúvida, memória.

Por outro lado considerar uma fonte que fala a partir de três pontos – individual, coletivo e histórico, como memória pura, me pareceu insuficiente.

Estas considerações intempestivas trouxeram à baila outra questão: como perceber a história? Chamei para a discussão Jacques Le Goff em Memória e História. Ligado a Escola dos Anales, que desde sua primeira geração já ampliara a noção de fontes, Le Goff, propõe a História como a forma científica da memória. É por meio do ofício do historiador, no recortar o tempo e no selecionar as fontes que produzimos conhecimento. O que resistiu à ação do tempo, não se configura como o conjunto daquilo que existiu no passado, e sim como uma escolha efetuada pelos autores. Sendo assim, tomamos como verdade uma parcela do real, do acontecido, e consideramos como fato histórico às informações que nos permitem explicar as situações do presente[4].

Reconstruir o passado a partir dos problemas, conceitos e modelos que o presente nos disponibiliza, significa dizer, em outras palavras que a história é filha de seu tempo, e como lembra Febvre, as fontes são criadas, inventadas e fabricadas pelo historiador. De toda maneira, as fontes não são neutras, e nem podem ser utilizadas como argumento de autoridade. Assim, para Pierre Bourdieu, as representações podem “contribuir para produzir aquilo por ela descrito ou designado, quer dizer, a realidade objetiva” (BOURDIEU, 1989, p. 114). Para Roger Chartier, os discursos “produzem estratégias e práticas sociais, que (...) tendem a impor uma autoridade a custa de outra, por elas menosprezadas, a legitimar um projeto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos as suas escolhas ou condutas” (CHARTIER, 1990). Muito embora, não neutras, as fontes tornam-se importantes para a escrita da História, na medida em que é ela que nos fornece representações do fato, que devem ser lidos e traduzidos, cabendo ao pesquisador a decisão do referencial teórico a ser utilizado. Como já mencionamos, as fontes por si só, não são capazes de argüir com autoridade absoluta, visto que elas já são frutos de uma seleção, feita pelo pesquisador, considerando elementos de sua formação pessoal, e tornando a análise verossímil, mas não incontestável.

Produzimos assim, verdades relativas, válidas para seu tempo. E não quero aqui entrar no mérito da questão e definir quem é mais verdadeiro, a memória ou a história. Quero apenas registrar que as entendo como justaposição, na qual uma contribui com a outra, e juntas podem nos deixar ainda mais próximo daquilo que aconteceu e pensaram sobre tempos não tão distantes. Retomando Le Goff, são duas histórias diferentes, uma do historiador e outra da memória.

A história, enquanto corpo orgânico de conhecimento, conforme estabelecido por R.G. Collingwood pode de todo modo, reescrever o passado de maneira particular, e concluo sinalizando que ao olhar para esta fonte pela lente da história, podemos apontar as distorções, os exageros e os esquecimentos produzidos pelos interesses particulares que animam as memórias coletivas.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

COLLINGWOOD, R.G. A idéia de História. Lisboa: Editorial Presença, 1972.

BETONI, Walteir Luiz. Dourados: entre a memória e a história. Dissertação de Mestrado. Dourados: UFMS, 2002.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Lisboa: Difel, 1989.

CHARTIER, Roger. História Cultural: práticas e representações. São Paulo: EDUSP, 2002.

GUARINELLO, Norberto Luiz. Memória coletiva e história científica. Minas Gerais: 1993.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Ed. da Unicamp, 1996.



[1] Texto apresentado como trabalho de conclusão da disciplina Metodologias da História, ministrada pelo Prof. Dr. Cláudio Alves Vasconcelos no primeiro semestre de 2007.

[2] Mestrando em História/ UFGD.

[3] Excerto do Hino à Dourados.

[4] Discussão também travada por BETONI.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Inquietações Acadêmicas: considerações acerca da Revolução Francesa[1]

Mercolis Alexandre Ernandes[2]

ILUMINISMO E REVOLUÇÃO

“Curiosamente, toda a argumentação teórica da aristocracia para recusar as reformas e atacar o Absolutismo baseava-se no discurso iluminista, isto é, utilizava-se da linguagem liberal dos filósofos com suas noções sobre a liberdade, a representatividade do poder e o direito de propriedade. Mas não se tratava tão somente de uma apropriação, por parte da aristocracia, dos conceitos políticos do Iluminismo, e sim de uma verdadeira contracorrente de ideologia aristocrática cujo expoente mais ilustre e ao mesmo tempo mais “enrustido” foi Montesquieu. O que demonstra, por um lado, que o pensamento iluminista era tão universal que contaminou ideologicamente até mesmo a aristocracia, e, por outro, que não se tratava simplesmente de uma teoria construída ad hoc pela e para a burguesia tomar o poder.”[3]

Partindo do pressuposto da universalidade do Iluminismo, que nas palavras de Modesto Florenzano contaminou a aristocracia no contexto revolucionário francês da segunda metade do século XVIII, podemos considerar que ele atua também, como projeto político, cuja realização esteve a cargo da sociedade burguesa capitalista. Ele passa a ser além de uma crítica deísta sobre a existência, a possibilidade de liberdade para o terceiro estado.

A partir das discussões sobre razão, não submissão a ideologias, trânsito entre classes e oportunidades iguais, o Iluminismo atinge a política, nos permitindo analisar sua presença nas ações revolucionárias francesas, como produto e não causa[4]. Produto, pois até 1776 os fundamentos da nova forma de ver e explicar o universo acreditava que liberdade estava na reflexão em torno da equidade jurídica, transformando pessoas em cidadãos, e logrando a elas mesmas, a responsabilidade de conquistarem melhores condições de vida. Como por exemplo, a Constituição Norte Americana.

Isto posto, há que se considerar a existência da Monarquia Francesa, enquanto estrutura feudal, que numa crise financeira viu a única possibilidade de superação dos obstáculos, a taxação de impostos extras sobre a aristocracia e o clero que, reagiram rapidamente, além de fatores climáticos que proporcionaram a migração de boa parte da população rural para as cidades. No meio urbano, a falta de estrutura oferecia péssimas condições de trabalho, e a exploração era constante, haja vista a grande oferta de mão-de-obra. Sendo assim, os franceses, há muito explorados pelo Antigo Regime, precisavam muito mais do que igualdade jurídica, de liberdade. Nesse sentido, no mesmo momento em que a França vivia uma revolução, o Iluminismo, preconizado anteriormente, estava sendo ressignificado em território Bourbon.

Esse processo obriga-nos a concordar com Florenzano, no ponto de vista da universalidade dos conceitos iluministas. Pois, ao analisar a Aristocracia, principal agente da Revolução de 1787, observamos que ela valeu-se de propagandas acerca da liberdade da pessoa em torno de sua existência, ao mesmo tempo em que pretendia garantir sua representatividade no poder, assumindo o discurso do direito de propriedade. Isso nos mostra que essa apropriação de posturas mais “liberais” é o resultado de um projeto político frustrado, de apoio e manutenção do Absolutismo, fazendo com que novas maneiras de sobrevivência fossem assumidas, a ponto de limitar alguns conceitos, como o de liberdade, utilizando apenas as lentes do caleidoscópio iluminista, que lhes eram úteis.

A utilização desses ideais, adaptados às propostas de cada grupo político, confronta-se com a teoria de que toda classe revolucionária possui um projeto novo, transformador. Tornando a burguesia um agente muito mais reformador do que revolucionário. Reformador, na medida em que amplia, após inúmeros acontecimentos políticos, a liberdade, tornando o homem, depois de livre, “igual” em termos jurídicos, econômicos e sociais, e passível ainda de experiências fraternas.

Portanto, se há que se estabelecer alguma relação entre a Revolução e o iluminismo, temos depois de um confronto, uma dialética entre eles. De outra maneira, não conseguiríamos entender ou até mesmo explicar, de modo algum, os atos despóticos e aterrorizantes verificados ao longo do processo.

PROJETOS POLÍTICOS

Após a promulgação da Constituição de 1791, a França assumiu um regime político que limitou os poderes da coroa, tranformando-a numa Monarquia Constitucional. A Constituição, seguiu a orientação de Montesquieu que separou os poderes em Legislativo, Executivo e Judiciário, e fez dos civis completos cidadãos. Porém, ser cidadão ainda não lhes garantiu pleno exercíco de todas as atividades propostas pelo novo regime, estes foram subdivididos em ativos e passivos[5], restringindo somente aos ativos, ou seja, os que detinham condiçõe econômica diferenciada e propriedades, a participação política. Apesar de ter limitado o poder do rei, este ainda podia nomear seus ministros, garantindo a representatividade da monarquia. O texto constitucional também colocou fim ao feudalismo, e nacionalizou os bens da igreja, sinalizando o advento de uma sociedade burguesa e capitalista, em detrimento de outra, feudal e aristocrática.

Esse projeto político não teve muita eficiência, tampouco conseguiu se sustentar. Muitos setores queriam continuar com a revolução até a extinção por completo da monarquia. Os nobres, assustados, procuram apoio em outros Estados Absolutistas, a fim de se reorganizarem para uma revanche armada. O acolhimento dos emigrados e a Declaração de Pillnitz[6] desencadeou um processo de enfurecimento na população por intromissão nos assuntos nacionais, culminando na execução da Família Real.

E a República, o que propunha? Durante a fase jacobina, as reformas foram da economia à cultura passando pela educação. Os direitos do homem e do cidadão foram garantidos, numa curiosa diferenciação entre os dois conceitos. As questões militares foram beneficiadas com a criação do Exército Revolucionário, do Comitê de Salvação Pública, do Comitê de Salvação Nacional e o Tribunal Revolucionário. Com uma proposta mais ampla atingindo vários setores da população, a República Jacobina atendeu às necessidades dos franceses revoltosos. Muitas vezes, a força e o terror estiveram presentes. Opositores inquietos eram severamente punidos com a morte em pró da manutenção da ordem e do regime. O uso excessivo da violência e manobras políticas erradas, como a execução de Danton, somado ao descontentamento burguês com o congelamento dos preços, fez com que o projeto político burguês fosse reativado. E, nos girondinos, estava a maior possibilidade de realização, ao menos, no que tangia aos interesses da alta burguesia em sua versão mais conservadora. Na versão girondina da República, a do Diretório, centralizou o poder no Diretório, deu mais visibilidade aos militares pelas campanhas externas, e subdividiu o legislativo entre Quinhentistas e Anciãos. A crise financeira enfrentada e a anulação das conquistas sociais jacobinas alteraram significativamente o quadro político. Os membros do Diretório enfrentavam oposições de todos os lados. A crise política se agravou, e permitiu que Napoleão Bonaparte chegasse ao poder.

De todo modo, o que precisamos enfatizar, é que muito mais do que transformação política radical, a burguesia capitalista da França do século XVIII proponha uma adequação do sistema ao seu modo. Relendo algumas das velhas estruturas, conservando aspectos primordiais e ressignificando seus conceitos a fim de convencer a todos de que seu projeto era o mais viável. Atentos às transformações do pensamento mundial, aristocratas e burgueses, habilmente souberam como manipular o pensamento político europeu setencetista.

BIBLIOGRAFIA

BLANNING, T.C.W. Aristocratas versus burgueses? A Revolução Francesa. São Paulo: Ática, 1990.

FLORENZANO, Modesto. As Revoluções Burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1986.

MOTA, Carlos Guilherme. A Revolução Francesa de 1789-1799. São Paulo: Ática, 1990.

Sites consultados:

www.wikipedia.org.br

www.suapesquisa.com

www.culturabrasil.org



[1] Texto apresentado à disciplina de História Contemporânea I, ministrada pelo Prof. Dr.º Protásio Paulo Langer, no curso de História da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, como forma de avaliação.

[2] Acadêmico do quarto ano da graduação em História.

[3] FLORENZANO, Modesto. As Revoluções Burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1986.

[4] Conforme análise de T.C.W. Blanning em, BLANNING, T.C.W. Aristocratas versus burgueses? A Revolução Francesa. São Paulo: Ática, 1990.

[5] O Grupo dos passivos era composto por mulheres, trabalhadores e desempregados.

[6] Assinada em 1791, pelos países que apoiavam a França na restauração da monarquia, principalmente a Áustria.

MOTTA, Márcia Maria Menendes. A Primeira Grande Guerra. In: FILHO, Daniel Aarão Reis. O Século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

A Primeira Grande Guerra Mundial é sem dúvida o resultado do confronto de rivalidades entre quatro principais potências mundiais: França, Inglaterra, Alemanha e Rússia. Apesar dos diferentes estágios de industrialização, esses países sofreram ao mesmo tempo os efeitos do avanço do capitalismo industrial desencadeado no território europeu a partir da segunda metade do século XVII e todo o século XIX. A expansão imperialista desses países obtém como resultado a guerra.

Isto posto devemos considerar o nível de industrialização de cada país. Na Inglaterra, a Revolução Industrial havia modernizado as máquinas a vapor e a indústria têxtil, modernização que transformou profundamente a sociedade inglesa. O fechamento dos campos fez com que a população migrasse para as cidades em busca de empregos, aumentando o número de mão-de-obra disponível. O consolidado mercado interno inglês, acelera o crescimento econômico, na medida em que as cidades estavam aptas a receber esses migrantes para trabalhar na indústria. No que se refere ao mercado externo, a Inglaterra era considerada a “senhora dos mares”, com uma relação ultramarina de dominação econômica de outros povos, em função das guerras de colonização travadas anteriormente. Nesse sentido, a Inglaterra foi vítima de seu próprio pioneirismo. Outras potências econômicas tornavam-se concorrentes de maneira rápida, pois não precisaram passar por todos os processos de desenvolvimento até atingirem o mesmo nível de industrialização da Grã-Bretanha, desse modo esses países podiam “pular etapas” desse desenvolvimento atingindo o ápice nessa concorrência por mercados de consumo para seus produtos.

A Alemanha em menos de uma geração tornou-se um país unificado e forte, e desenvolveu um planejamento cuidadoso para modernizar-se. Formou cartéis, favoreceu conglomerados econômicos, e investiu na educação. Em pouco tempo, a Alemanha tinha um alto número de mão-de-obra especializada cientifica e tecnologicamente deixando para trás o atraso.

A França, outra potência, embora com a maior parte de sua população no campo, possuía algumas indústrias, mas que só atendiam uma pequena parcela da população que vivia nas cidades, além do que a concorrência com a gigante Inglaterra desestimulava qualquer investimento em nível de maior produção de produtos industrializados. Considerando isso, a França opta por investir na qualidade dos seus produtos, aproveitando-se da idéia propagada mundialmente de que, a cultura francesa era sinônimo de beleza e bom gosto. Com capital inglês a França construiu estradas de ferro, consolidou seu mercado nacional e investiu em locais mais favoráveis.

A Rússia, por sua vez, não possuía uma força industrial, visto que cerca de 79% da população vivia no campo, e apresentava-se como um país de grandes contrastes, coexistindo com indústrias modernas, e sociedades agrárias miseráveis. Fato é que a Rússia era o país mais populoso da Europa, com um Estado autoritário e militarizado, cuja industrialização dependia necessariamente do investimento estrangeiro, obrigando o Estado a atuar como mediador entre o capital internacional e a indústria.

A descoberta de novas formas de energia, de novos medicamentos e de novas tecnologias fortalecia o sentimento de que o ser humano era bastante capaz de inventar, aludindo a uma Belle Époche, carregada de otimismo e estabilidade duradoura. Todos os esforços dos países envolvidos pareciam recriar velhas rivalidades, e a deflagração de uma guerra entre qualquer uma dessas potências era algo possível. E nesse cenário o nacionalismo desses países tornou-se exacerbado. O serviço militar passou a ser obrigatório, recrutando jovens para as forças armadas. O resultado social disso era bastante visível, pois desse modo o exército influenciava na política e na sociedade de seus países. Soma-se a isso a construção e generalização de um conjunto de tradições que visavam fortalecer esse mesmo nacionalismo. Sendo assim cada Estado era ciente de seu papel na política mundial, e a rivalidade com relação a outras potências industrializadas aumentava a medida em que cada sociedade acreditava na sua superioridade com relação à história e política mundial.

Há que se considerar ainda, os conflitos já existentes, como por exemplo, a rivalidade entre França e Alemanha, após sua unificação em 1871, na guerra Franco-Prussiana, e a anexação da região da Alsácia e da Lorena. Tanto quanto, a disputa da mesma França, com a Inglaterra pelo Marrocos, em terras africanas.

O assassinato do príncipe herdeiro do trono Áustro-Húngaro desencadeou, como em efeito dominó, conflitos pelo território europeu. Novas alianças foram feitas, e colocaram-se de um lado, França, Inglaterra e Rússia, e de outro, a Alemanha e a Áustria-Hungria. Com frentes de batalha para o ocidente e o oriente, a Alemanha iniciou sua ofensiva pela Bélgica, desafiando a Inglaterra e a França, e depois teve que se ocupar com a Áustria e a Rússia.

Apesar da esperança de todos de que os conflitos durassem pouco, a guerra mostrou-se mais violenta do que o esperado, e as perdas humanas representavam o fim do sonho de um mundo de paz. A quantidade de soldados mortos, e a violência dos conflitos, principalmente nas trincheiras, enfatizavam a crueldade dos massacres, bem como suas técnicas. Foi exatamente nesse período que as “tecnologias para a morte”, ou seja, o desenvolvimento da indústria bélica contribuiu para todo esse processo.

Após anos de violência, era necessário, portanto, acordos de paz, a fim de colocar um basta naquela situação. Nesse sentido, antes do fim da guerra a Rússia já havia se retirado, e teve que dar conta das disputas internas surgidas com a Revolução de 1917, fato que obrigou Leon Trotsky a negociar com inimigos, no sentido de não anexação de territórios. Após inúmeros acontecimentos, dentre eles as reinvestidas alemãs, a Rússia se vê obrigada a aceitar o Tratado de Brest-Litovsk, que sem dúvida nenhuma, a deixara humilhada. Depois disso, o presidente norte-americano Wilson, apresentou no congresso americano um plano de paz mundial, que ia da abolição da diplomacia secreta, ou seja, serviços de espionagens, a criação de uma sociedade, um tipo de Liga das Nações.

Considerado por ingleses e franceses insuficientes para resolver os conflitos, os 14 pontos de Wilson, não reconheciam necessariamente os esforços desses países no conflito, bem como não garantiam que a Alemanha não voltaria a atacar seus rivais. Contudo, após esse episódio, reuniram-se em Paris, aos dezenove dias do mês de janeiro, representantes dos governos norte-americano, francês e inglês que discutiram os termos de uma paz imposta, e não negociada, sem a participação dos derrotados, e anunciaram o mundo o resultado: o Tratado de Versalhes. A Alemanha principal atingida pelo Tratado, foi obrigada a pagar altas indenizações, a devolver territórios anexados, e a se não acabar, ao menos diminuir sua potencialidade bélica, a custas de retaliações das outras potências.

Apesar de finalizada, a Primeira Grande Guerra Mundial ainda foi capaz de prolongar seus efeitos colaterais. A geografia européia havia sido alterada, a devastação econômica dos países envolvidos era visível, e os empréstimos norte-americanos, faziam com que a inflação aumentasse nesses países, tornando a fome e a miséria as únicas coisas realmente transversais a seus povos. O desemprego aumentou, os ex-combatentes retornaram a suas casas, e encontraram suas nações dilaceradas. O otimismo deu lugar ao pessimismo, o sonho ao pesadelo, e a rivalidade entre esses países não acabara, deixando claro que uma Segunda Grande Guerra Mundial ainda aconteceria.

SPINDEL, Arnaldo. O que é Socialismo. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1986.[1]

Mercolis Alexandre Ernandes[2]

À luz da I Internacional, o marco inicial do advento do socialismo científico foi à publicação do Manifesto do Partido Comunista, em meados de 1848. As principais idéias contidas neste documento partiram das reflexões de Karl Marx e Frederic Engels. Neste sentido, suas propostas caminham na direção de uma revolução proletária, intensificada pelo movimento de greve nas unidades fabris. Depois disso viria a Ditadura do Proletariado, no qual o Socialismo seria efetivamente instaurado. No projeto de Marx e Engels, estava presente a melhoria na educação dos trabalhadores, a representatividade partidária, e um período ditatorial curto. Divulgado mundialmente, o texto do manifesto, foi absorvido de diferentes formas. Ao chegar na Rússia, encontram em Bakunin, algumas divergências. Para boa parte dos trabalhadores russos não havia a necessidade de educação e organização das massas, nem o trabalho sob a conduta de um partido. Mas acreditava que umas elites revolucionárias, apoiadas pelos camponeses e pelos trabalhadores seriam capazes de detonar a revolução e atingir o poder.

Ao longo de 12 anos, trabalhadores do mundo inteiro discutiam suas condições de trabalho e como combater o crescente capitalismo. Reunidos em Paris, no evento chamado de Comuna de Paris, os trabalhadores não entraram num consenso a respeito dos caminhos a serem tomados em escala mundial. Foi também nessa situação que o Socialismo encontrou seu pior inimigo, gerado ali em seu próprio meio: o Anarquismo, que propunha uma passagem direta à uma sociedade sem Estado. Ao clarear 1876, foi decretado o fim da I Internacional cujas principais contribuições foram o sentimento de que socialismo implica em liberdade, e uma diminuição das concepções utópicas do socialismo.

Com o fracasso do I Internacional, franceses e ingleses não conseguem se articular de maneira satisfatória, ainda mais com a morte de Marx em 1883, Engels não apóia a reedição do Congresso Internacional de Trabalhadores, e desse modo, os franceses apresentaram um quadro de organização de trabalhadores, tendo de um lado marxistas franceses e sociais-democratas, geralmente de base ideológica francesa, e de outros reformistas franceses apoiado pelos sindicalistas ingleses, que realizaram congressos trabalhistas paralelos às reuniões do Congresso Internacional. Um ano depois, em Bruxelas, houve uma união dos grupos, dando abertura à II Internacional, na qual as principais discussões foram regidas pelas idéias de BERNSTEIN, ou seja, socialismo modernizado à luz do capitalismo; as dos MARXISTAS MODERADOS, em outras palavras a aplicação pura das teorias marxistas; e por fim, os MARXISTAS REVOLUCIONÁRIOS, cujos expoentes eram Lênin e Rosa Luxemburgo, que defendiam uma profunda transformação revolucionária.

No interior da II Internacional, os grupos de trabalhadores de maior representatividade passaram a se organizar em torno de concepções ideológicas próprias. Na Alemanha, a corrente lassaliana de origem burguesa, une-se à eisenachiana puramente marxista, porém aos moldes alemães, propõem estabelecer a social democracia. A partir dessa discussão abriram-se novos caminhos. Dentro da Social Democracia, um grupo minoritário ainda defendia a aplicação do marxismo puro, enquanto a maioria pedia a presença das principais idéias de Marx, unidas à representação parlamentar. Bernstein justificava essa fusão de pensamentos dizendo que Marx, estava obsoleto, e que o capitalismo não aprofundava as diferenças, propondo ainda liberdade para o indivíduo, sem precisar pela ditadura do proletariado.

Na França, em 1877 tem início o movimento socialista francês, com Jules Guesde, um reformista anarquista que, criticava o partido dos trabalhadores franceses, a ponto de fundar um novo, o partido dos trabalhadores revolucionários franceses. Entretanto, a Inglaterra, não era muito fã de Marx, sendo assim a opção foi o Socialismo Reformista, ou seja, Marx aplicado à sociedade, com a atuação do parlamento, que adotaria o modelo fabiano de sociedade, com reformas sociais via Poder Legislativo, bem como a supressão da propriedade privada.

Contudo, após anos de discussão em torno da organização dos trabalhadores em nível mundial, capitalismo e socialismo continuaram se enfrentando, no sentido de melhorar as condições de trabalho nas fábricas e indústrias do mundo todo.



[1] Trabalho apresentado ao Professor Dr. Protásio Langer, como uma das avaliações de História Contemporânea I, do Curso de História da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD.

[2] Aluno do 4º ano da Graduação em História.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

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cara amiga

Talvez essa seja uma forma eficiente de nos comunicar, e ao mesmo tempo exercitarmos nossas mentes em torno de algumas questões.

O tempo é outro. Para todos nós. É outro, enquanto novo, e novo, na medida em que está nos proporcionando novas experiências, que dão novos sentidos. No Mestrado, a História enquanto ciência tem-se revelado muito pesada. Não que eu acredite nela, mas o ranço do marxismo mal interpretado ainda insiste em se tornar saboroso para algumas pessoas. Eles querem a verdade, mas dizem que estão atrás de uma aproximação do real. Estabelecem um jogo representado como uma guerra, que ao meu ver, quando muito, nos levará a lugar nenhum. Mas, de todo o modo, posto que aqui está, uma guerra cara. Para nós, e para eles.

Do outro lado, existe a fragmentação incontrolável das coisas. As que eram “sólidas”, por ora se revelam móveis. E enquanto se desmancham no ar, cada fragmento assume um significado, que juntos se transformam em fuligem, que quando me toca, preocupa. E nessa tempestade de idéias, por enquanto, ainda não encontrei nenhum lugar seguro, pelo qual eu possa caminhar livremente, embora algumas sensações tenham me deixado bastante confortável. Após a resolução de algumas questões absolutamente ambivalentes, tenho provado algumas ambigüidades, feito alguns bricolages, e traduzido isso tudo, na tentativa de entender o mundo diante de mim, e a mim diante do mundo. O meu, em particular, e este em função do todo. Acontece que aqui mora o meu problema. Nessa desreferencialização, me reterritorializo, num lugar carregado de novos significados. Que exige uma predisposição gigantesca para definir as fronteiras. E depois, na intersecção dessas, perceber. A percepção me enlouquece! Visto que, é preciso traduzir os símbolos, entender os signos e os significados, e ouvir as narrativas, e, talvez por meio desse conjunto de representações definir o meu lugar, para em seguida tentar ocupar um espaço.